Nos passos de Fernão de Magalhães em Sanlúcar de Barrameda. Sabores marineros e da horta regados com manzanilla e amontillado.

Todo lo que nada, con fino o manzanilla; todo lo que vuela, con amontillado, y todo lo que anda, con oloroso.

Plaza del Cabildo

Sanlúcar de Barrameda, cidade gaditana com mais 70.000 habitantes, é muito mais do que os 146.000 quilos de lagostins que se venderam na sua lota em 2020 e que os 7.000 hectares de vinhas que alimentam as suas 21 adegas donde sai um tesouro enológico: a manzanilla.

Situada junto ao Parque de Doñana, na margem esquerda da foz do rio Guadalquivir, Sanlúcar de Barrameda, com o seu Barrio Alto e Barrio Bajo e seus monumentos (muitos datados dos séculos XVI e XVII), oferece ao visitante uma visão de como era a cidade quando a expedição de Fernão Magalhães dali partiu em 1519 com 200 homens a bordo de cinco naus e regressou três anos depois com 18 homens comandados por Juan Sebastián de Elcano e apenas uma nau, a ‘Victoria’, depois de ter realizado a primeira circum-navegação do Mundo.

Bastará darmos uma volta por Sanlúcar, desde a plaza del Cabildo até Bajo de Guía, o bairro dos pescadores, para nos darmos conta dos restaurantes e bares onde poderemos provar os produtos típicos da zona. Tortilhas de camarões, mariscos, peixe, guisados com sabor do mar… E uma Plaza de Abastos que faz as delícias dos naturais e dos estrangeiros.

Correspondendo a este desafio, o ICIA preparou um programa para um fim de semana gastro-cultural em Sanlúcar de Barrameda, a realizar num fim de semana de junho. A nossa proposta, porém, não mereceu a adesão dos associados.

Fica, por ora, adiado o passeio para depois do Verão, caso os associados manifestem essa vontade. Se não, se não houver um número de associados que justifique uma excursão em grupo, quem o desejar poderá fazê-lo individualmente, em grupo de amigos ou em família. Por isso, aqui fica o programa.

Post atualizado em 1 de junho para dar conta do adiamento (e eventual cancelamento) do passeio.

1º dia:

12.00:  Visita ao Centro de Interpretação da Manzanilla, CIMA, localizado nas chamadas Covachas., galerias de pórticos de estilo gótico-andaluz onde se  destacam as figuras de animais marinhos mitológicos.  No CIMA, poderemos conhecer o universo manzanillero formado pelos dezoito principais produtores de Manzanilla e uma mostra museográfica com os utensílios da vindima e equipamentos das adegas.

Bodega La Gitana

13.00: No centro e no Barrio Bajo, construído sobre os antigos navazos (sistema de hortas em terrenos arenosos regados com água do mar), a visita a uma adega é incontornável. Por exemplo, La Gitana, fundada em 1792, e que continua nas mãos na oitava geração da família Hidalgo.  

14.00: Almoço no Barrio Bajo

Depois, no coração da cidade. rodeado de pátios, bodegas e jardins e pelo perfume suave e refrescante fresco da Manzanilla, propomos que almocemos no Entrebotas que, entre outras iguarias, oferece arrozes melosos, peixe e carne cozinhados com brasas de cortes das vinhas. Para sobremesa, os gulosos poderão ir à doçaria Rondeña, para saborear biscoitos, pão de Cádiz, cortadillos, tortas de amêndoa, e outras guloseimas.

Cozinha d o restaurante Entrebotas


17.00: Entardecendo entre copos na Plaza del Cabildo e tapeando noite adentro:

A Praça do Cabildo é o centro nevrálgico sanluqueño. A praça está sempre viva, seja de manhã, tarde ou noite. E cada hora tem o seu público e cores próprias: a das fachadas brancas, buganvílias e palmeiras. A dos guarda-sóis. O murmúrio da fonte. O antigo cabildo transformou-se numa biblioteca pública cuja sala principal ocupa o antigo pátio. Depois de bebermos uns copos, escutando a historiadora Maria da Graça Ventura a contar a aventura magalhânica, propomos que jantemos por ali.

Durante a tarde, as esplanadas convidam a sentarmo-nos. A taberna Barbiana, La Gitana, a casa Balbino e a taberna Juan desafiam-nos a entrar. No Toni ou na La Ibense podemos refrescar-nos com gelados artesanais.

Depois, subiremos ao 11º andar 11 do hotel Guadalquivir para, desde o Camarote Pub, vermos um intenso e demorado pôr do sol que solo.

Para jantar, um lugar apetecível é a Casa Balbino, na Plaza del Cabildo, onde em 1939 Balbino Izquierdo abriu um  armazém de vinhos e onde na década de oitenta começaram a servir guisados caseiros para acompanhar os copos e hoje é um clássico considerado o “templo de las tortillitas de camarones”, uma delícia crocante entre as 70 tapas do menu, onde também se destacam os rollitos de langostino con berenjena, os pimientos rellenos ou o cazón a la marinera. Na ocasião, o nosso associado João Ventura lerá o conto O barril de amontillado de Edgar Alan Poe.

Outros lugares com identidade própria são a taberna Pedro Hernández Santolalla, uma antiga mercearia no rés-do-chão de uma casa de carregadores das Índias do século XVI ou a Casa Perico, com os seus guisados marineros. Para os amantes do vinhos da região, não há melhor do que a Taberna del Guerrita, onde se deve provar o grão com cardos.

2º dia:

Subimos ao Barrio Alto, antigo bairro senhorial, pela calle de Bretones de onde se sitúa o concorrido mercado de abastos. A  ziguezagueante encosta de Belén dá acesso ao auditório de la Merced e ao palácio de Orleans e Borbón, atual sede do Ayuntamiento, cujos jardins se podem visitar. Porém, poderemos desfrutar de outro jardim. Na plaza de los Condes de Niebla, ao lado da bela igreja de Nuestra Señora de la O, fica o palácio Ducal de Medina Sidonia, também hospedaria, e que acolhe o arquivo visitável, e os salões de Columnas e dos Embajadores. Os sanluqueños recomendam tomar o pequeno almoço no jardim do palácio: íntimo, de um colorido intenso, com recantos de sombra; como fundo, o canto dos pássaros e como aroma, além do perfume odor marítimo marino, o perfume da flor de laranjeira.

É impressionante a arquitetura residencial de estilo barroco baixo-andaluz da calle de Caballeros e as adegas da rua dedicada ao dramaturgo Eguilaz: ali cheira a manzanilla e pode-se avaliar até que ponto as adegas Barbadillo foram um epicentro económico. No final de calle Eguilaz, sitúa-se o castelo de Santiago. As pedras de cor terrosa terroso contrastam com a brancura das casas senhoriais e com as ferragens negras. Desde a torre de menagem, a rainha Isabel la Católica viu o mar pela primeira vez.

13.00: Bajo Guía

Sanlúcar, com os seus seis quilómetros de praias, tem na zona de Bajo de Guía, onde se junta rio Guadalquivir com as águas do Atlântico, a sua melhor montra. Para almoçar, além da famosa cozinha da Casa Bigote, com os seus insuperáveis lagostins e guisados como a raia em molho de laranja azeda ou o tamboril com pão frito pão frito, existem o Poma, com os seus  arrozes marineros e o peixe de rocha ao sal, o Mirador de Doñana, de onde se pode desfrutar de una sopa de galeras ou uma salada de gambas e ovas de choco. A zona de Bajo de Guía, em cujas margens, até 1967, todas as manhãs se leiloava o peixe capturado, deixou de ser as traseiras da cidade, transformando-se num agradável e solarengo lugar para nos sentarmos à de um dos restaurantes que há por ali.

Até onde cresce a oliveira

A Europa nasceu no Mediterrâneo. A oliveira é a sua fronteira

Predrag Matvejevitch, Breviário Mediterrânico do (1987).

Depois de ter editado a revista Atlântica, o ICIA lançou em dezembro de 2021 uma nova revista, a “Meridional, Revista de Estudos do Mediterrâneo”. Entre a partida da Atlântica e a chegada da Meridional ao mesmo cais de Portimão distam onze anos, mas permanece a mesma resiliência e espírito empreendedor e inventivo do ICIA, que teve correspondência na presença dos muitos associados e amigos que encheram o auditório da Biblioteca Municipal de Portimão na sessão de lançamento.

A sessão abriu com a leitura por João Ventura dos poemas de Nuno Júdice, Pedro Teixeira Neves e Salvador Santos publicados na revista, versando todos eles sobre o tema da “partida”. Na intervenção inicial, a presidente do ICIA e diretora da revista, Maria da Graça M. Ventura, disse que “após a gratificante experiência de edição da Atlântica, entre 2001 e 2008, eis que, como Ulisses, regressamos ao ponto de partida, ao Mare Nostrum, com um novo projeto editorial.”

A apresentação da revista foi feita pelo jornalista Carlos Albino que considerou “comovente” a sua publicação no contexto cultural do Algarve, pela qualidade dos textos que este primeiro número oferece. Salvador Santos, da editora Sul, Sol e Sal, referiu as dificuldades por passa o setor no Algarve e o desafio irrecusável que representa a edição da revista. Dora Pereira, Diretora do Departamento de Ação Cultural, encerrou a sessão em representação da Srª Presidente da Câmara, expressando o seu regozijo por esta iniciativa que muito dignifica o setor cultural do Algarve.

O primeiro número da Meridional conta com a participação de Adriana Nogueira, Afonso Cruz, António Cabrita, António Jorge Afonso, Carlos Osório, Eduardo Lourenço (in memoriam), João J. B. Ventura, João Mariano, Lídia Jorge, Marco de Sousa Santos, Maria da Graça A. Mateus Ventura, Nuno Júdice, Paulo Girão, Pedro Teixeira Neves e Salvador Santos, cuja generosidade o ICIA agradece.