«Meridional», a revista cultural que é «um jornal do tempo que passa»

  • Reproduzimos aqui o excelente artigo da autoria de Elisabete Rodrigues, sobre a apresentação da Meridional 2, em Loulé, publicada no Sul Informação em 17.01.2023.

A revista Meridional, cujo segundo número foi apresentado no sábado, 14 de Janeiro, na Casa do Meio-Dia, em Loulé, é «um jornal do tempo que passa».

As palavras são da escritora Lídia Jorge, que apresentou esta segunda edição.  Lídia Jorge, que fez a apresentação com Maria da Graça Ventura, diretora da revista e do ICIA – Instituto de Cultura Ibero-Atlântica que a edita, classificou a publicação como «uma revista do Sul, do Algarve, de nós todos para nós todos». Mas uma revista cultural que não hesita em debruçar-se, a várias vozes, sobre o tema do momento, a guerra.
Referindo-se ao cuidado aspeto gráfico desta publicação de 304 páginas, com a dimensão e o formato de um livro, Lídia Jorge salientou que «mesmo como objeto é muito apreciável, com um grafismo muito bem pensado».Voltando a apostar num monocromático preto&branco (até por razões de custos), a fotografia da capa é da autoria de Elsa Martins, mas o seu nome (Azinheira de asas longas), como recordou Graça Ventura, foi sugerido por Lídia Jorge. A escritora já nem se lembrava de tal coisa, mas foram as suas «palavras certas» que batizaram a foto.As árvores do Sul, aliás, estão mais do que uma vez presentes nas páginas desta «Meridional». De tal forma que a única fotografia a cores é a da alfarrobeira fotografada por Lídia e com a sua sombra projetada, que ilustra a crónica «Alfarrobeira do Caminho», um texto que, só por si, justificaria a compra da revista. Mas há muito, muito mais para ler.
«Este segundo número tem uma estrutura com inteligência, muito pensada para se chegar a este ponto». Dividida em seis grandes partes – Poesia, Dossiê Temático, Grande Entrevista, Crónicas, Estudos e Recensões -, é uma revista «sobre o Sul, o Algarve e as zonas que envolvem a nossa região, mas dialoga também com espaços mais vastos». Há, por isso, «uma revista sedentária e outra nómada», acrescentou a escritora.Mas a «Meridional» não se fica por aqui: «há artigos que são uma crónica do tempo presente, atravessado pela tragédia que estamos a viver», a da guerra, que, aliás, é o mote da parte dedicada à Poesia e motiva depois todo um dossiê especial.

Parafraseando Hölderlin (e não foi a única a fazê-lo), Lídia Jorge interrogou: «O que podem os poetas em tempo de indigência?» «É uma pergunta que não tem solução, mas tem resposta», disse.

Na sua apresentação, a escritora, de revista na mão, percorreu as várias partes, tendo destacado o texto de João Ventura sobre Odessa, que classificou como «absolutamente maravilhoso», «uma viagem literária profunda», ou o artigo sobre o «A-lã-Tejo»: «nunca tinha visto o Alentejo assim, nesta perspetiva», confessou.

Esta é «uma revista dirigida a um público abrangente, mas que também tem um carácter académico», explicou Maria da Graça Ventura. «Tal como está aqui pode candidatar-se ao panorama internacional das revistas académicas». Como recorda no seu editorial a diretora da revista, «a Meridional, Revista de Estudos do Mediterrâneo é um projeto coletivo concebido pelo Instituto de Cultura Ibero-Atlêntica, sedeado em Portimão. É uma publicação anual que preenche as condições exigidas para ser uma revista indexada (com conselheiros científicos, avaliadores externos, resumos e abtracts e títulos bilingues), sem que tal a remeta para um nicho exclusivamente académico. É rigorosa, exigente, versátil e criativa, obra aberta».

Mas é também uma aventura e fonte de muitas dores de cabeça. Por isso, Graça Ventura recordou as «dificuldades de trabalhar no campo editorial, não só ao nível da produção, como da divulgação».

Lídia Jorge lembrou, a propósito, que «o grande problema das revistas é a sua continuidade», já que publicações como a «Meridional» «vivem muito da boa vontade» de quem as produz e de quem para elas escreve.

Com «20 autores de diferentes nacionalidades e geografias», a publicação editada pelo ICIA apresenta vozes do lado de cá – Lídia Jorge, Nuno Júdice, António Cabrita, Maria João Cantinho, Maria Adelina Amorim, Rui Bebiano, João B. Ventura, Manuel Jorge Marmelo, Dora Gago, Frederico Mendes Paula, António Jorge Afonso, João Romero Chagas Aleixo, Carlos Osório, Joana Portela, Luís Filipe Castro Mendes, Luís J. Semedo Matos, Andreia Fidalgo – , mas também «vozes do lado de lá do Mediterrâneo» bem como «vozes mais distantes», que trazem contributos «para além da História e do Poesia», salientou Graça Ventura.

Dentro dessas vozes e desses ecos, destaque para Marrocos, que chega de três formas diferentes: primeiro, através do artigo de Mohamed Saadan, sobre a lenda de Aisha Qandisha. «Questionei-me: se há tantas lendas de mouros no Algarve, não haverá lendas de portugueses em Marrocos?». E foi assim que surgiu o desafio para que Saadan escrevesse o artigo sobre esta portuguesa em terras mouriscas. Depois, há a entrevista que o arquiteto José Alberto Alegria, cônsul honorário de Marrocos no Algarve e grande conhecedor da realidade cultural daquele país, fez ao escritor e artista plástico Mahi Binebine, «no palmeiral de Marraquexe». Ou ainda o artigo de outro arquiteto dedicado às coisas da cultura, Frederico Mendes Paula, sobre os mecanismos de defesa dos portugueses nas praças de Tânger e Mazagão, no início da Expansão.

Mas, desta vez, como explicou Graça Ventura, o centro da revista nem sequer ficou no Mediterrâneo, deslocou-se mais para Leste, para o Mar Negro e para a tragédia que também o atinge, motivando um extenso dossiê temático, com vozes diversas, como a da georgiana Tamta Melashvili.

Agradecendo a generosidade de quem participa num projeto como este, Maria da Graça Ventura salientou: «só me envolvo naquilo que gosto de fazer. A paga é o reconhecimento da validade do projeto». É que, frisou, sempre houve «resistência, permanência e coerência nos projetos do ICIA, desde a sua fundação em 1995».

Adriana Nogueira, diretora regional de Cultura do Algarve, também presente na apresentação na Casa do Meio-Dia, acrescentou ainda outra qualidade: «resiliência». Sublinhando que «o Algarve tem poucas revistas e não são desta natureza», a responsável desejou «uma longa vida» à «Meridional». «O meu desejo para 2023 é que, em Dezembro, haja o número 3 da Meridional para lançar e que estejamos todos aqui e mais alguns para celebrar a continuidade desta revista», concluiu, por seu lado, Graça Ventura.

A fechar a sessão, a diretora da revista surpreendeu Lídia Jorge com a oferta da fotografia emoldurada da «alfarrobeira do caminho», tirada pela própria Lídia e que ilustra a sua crónica que abre a revista. E Adriana Nogueira leu, a meias com Graça Ventura, um excerto da crónica de Lídia.

A Meridional está à venda nas livrarias Elifalma (Portimão), A Internacional (Lagos), Fortaleza de Sagres, Casa do Meio-Dia (Loulé) e Ler Devagar (Lisboa). Em breve, estará noutras livrarias do país. E pode ser enviada por correio (ver condições clicando aqui). Entretanto, o número 1 da «Meridional», lançado em Dezembro de 2021, já está online, um ano após a sua edição em papel e pode ser acedido aqui.

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