Uma ode melancólica à vida

Fazia falta na literatura portuguesa, direi mesmo na literatura europeia, um livro assim, capaz de contrapor à brutalidade e desordem, ao sofrimento e à indiferença dos tempos que correm, uma ode melancólica contra a morte e o apagamento e em favor da vida e do respeito pela dignidade humana.
Um livro de uma melancolia que liberta do coração da autora “uma alegria mansa” e resistente que, à medida que vamos virando as páginas do livro e da vida, deixa um rastro de esperança. Um livro poderoso que nos interpela e desassossega. Um livro que é um apelo comovido à misericórdia para com os mais frágeis e, ao mesmo tempo, um acto de misericórdia para com os leitores, tão necessitados que andávamos de um livro assim capaz de nos interpelar tão poderosamente. Um livro assim, em cuja escrita poética me vou embalando, quem sabe se, para no virar a última página, fechar o livro e abrir mais o meu coração aos mais frágeis e desprotegidos.
Misericórdia, um título que, como o interpretou José Tolentino Mendonça na comovente e erudita apresentação, antecipa o sentido profundo do livro, porque, explicou, o sentido etimológico da palavra “misericórdia” é ‘miseria’ e ‘cor’ / ‘miséria’ e ‘coração’). E citando Santo Agostinho: “Fala-se de misericórdia quando a ‘miseria` alheia toca e sacode teu coração. Todas as obras boas que realizamos nesta vida caem dentro da misericórdia.”
Um livro que apela a que façamos obras boas. E um livro que é ele próprio uma obra boa, porque nos toca e sacode o coração.
O livro de que vos falo é o romance Misericórdia, de Lídia Jorge, que foi ontem apresentado por José Tolentino Mendonça, na Biblioteca das Galveias, em Lisboa, diante de uma imensa plateia de leitores, escritores, jornalistas, amigos, todos gente misericordiosa para com livros. Gente que se emocionou com a “voz de prata” de Ana Zanatti quando abriu o livro e pôs a flutuar as palavras da Lídia.
Roubando as palavras a Giorgio Agamben, digo, como tu falas, como tu escreves, Lídia, isso é a ética.
Texto publicado por João B. Ventura na sua página de facebook em 22.10.2022.

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